Uma da tarde na Calle 47, entre a 68 e a 66, Centro de Mérida. O calor lá fora é o de sempre: impiedoso. Mas dentro do Ma'Le, o mundo é outro. Cheiro de limão espremido na hora e habanero no ar. As mesas estão todas ocupadas. Um casal divide um aguachile que parece arte em prato fundo, verde intenso, com fatias translúcidas de peixe cru. Na mesa ao lado, alguém levanta o celular para fotografar camarões antes de dar a primeira mordida. O burburinho é de almoço feliz, daqueles que ninguém tem pressa de terminar.
O Ma'Le fica na Calle 47 526A e abre todos os dias das 11h às 21h. A carta é de frutos do mar com alma mexicana, do tipo que funciona tanto no almoço rápido quanto na refeição demorada com margaritas. O ceviche é o clássico da casa, presente em quase todas as mesas, mas eu volto pelo camarão empanado com coco. A casca é de coco tostado, dourada, que estala quando você morde. Dentro, o camarão é gordo, suculento, quase derretendo. O molho de chipotle ao lado tem aquele ardor lento que sobe pelo nariz e te faz pedir outro gole da margarita. Os frequentadores também não largam o polvo, o aguachile de habanero, os chiles en nogada na temporada certa, o cheesecake de sobremesa. Com 4.7 de avaliação em mais de 240 opiniões, o Ma'Le conquistou clientela fiel sem fazer barulho nenhum.
Seis da tarde. O sol finalmente dá trégua e Mérida ganha outra cara. As calçadas do Centro enchem de gente passeando sem pressa. A caminhada até o Parque de la Mejorada leva uns quinze minutos, e no caminho o bairro muda de tom: menos turista, mais morador local voltando do trabalho. É nesse canto da cidade que o VANA espera.
O VANA fica na C. 50-A 489, abre às 17h e vai até a 1h de quinta a sábado. O cardápio é inesperado para Mérida. Tábua de queijos com figo, presunto serrano, burrata cremosa, hummus. Parece que alguém transplantou um bar de tapas mediterrâneo para o meio de Yucatán, só que os coquetéis de mixologia molecular lembram que você está no México. Quem vai com frequência fala da Mitzy, que cuida do salão com uma atenção que transforma jantar em experiência. Tem valet parking, o que em Mérida resolve aquele problema eterno de estacionar no Centro quando a intenção é beber sem preocupação. A nota de 4.8 com mais de 1600 avaliações não é por acaso.
Às dez da noite, o VANA tem aquela energia de lugar que funciona. Conversa alta, copos bonitos na mesa, gelo tilintando, a luz baixa fazendo o trabalho que toda boa iluminação de bar deveria fazer. Pedi um coquetel molecular e uma porção de burrata para começar. A burrata veio com um fio de azeite e sal em flocos. Dois ingredientes fazendo o trabalho de vinte. É o tipo de prato que te faz questionar por que outros lugares complicam tanto.
Fecho os olhos e a Mérida gastronômica aparece em duas cenas. O Ma'Le ao meio-dia, com aquele camarão com coco estalando entre os dentes, o aguachile verde que mancha o prato, o polvo que não sai da cabeça, as margaritas que ninguém pediu só uma. Depois, o VANA à noite, o brilho gelado de um coquetel na mão, a burrata derretendo no prato. Dois restaurantes, dois horários. Uma cidade que continua me pegando de surpresa quando eu acho que já conheço tudo.