É uma e meia da tarde de uma quarta-feira e o Los Mariscos de Chichí está lotado. O ar tem aquele peso úmido de março em Mérida, quase palpável, e o cheiro de limão espremido compete com o calor da calçada do lado de fora. Não deveria surpreender. Este é o tipo de lugar que acumula quase quatro mil avaliações online com nota 4.5 estrelas, o tipo de reputação que não se compra com publicidade nem se fabrica com influenciadores. Mas surpreende mesmo assim, porque Mérida tem mais de quinhentos restaurantes disputando cada estômago vazio ao meio-dia.
A relação de Mérida com frutos do mar é uma questão de quilômetros. O Golfo do México fica a pouco mais de trinta quilômetros ao norte. Progreso, o porto mais próximo, é quase um subúrbio litorâneo da capital yucateca. Pescadores saem antes do amanhecer e o produto chega à cidade pela manhã, passando de mão em mão até a cozinha de restaurantes como o Chichí. Quando você senta por volta do meio-dia, o peixe no seu prato tem poucas horas fora d'água. Essa proximidade muda tudo. O sabor. A textura sob o garfo. É uma frescura que nenhuma técnica de cozinha compensa quando está ausente, e que nenhuma precisa mascarar quando está presente.
O nome do restaurante tem a simplicidade de quem não precisa provar nada. "De Chichí" é um apelido, o tipo de nome que surge quando uma cozinha familiar vai crescendo, primeiro para os vizinhos, depois para a cidade inteira. O preço acompanha essa proposta: faixa intermediária, sem sustos na conta. Dá para pedir com vontade, pegar uma cerveja gelada, repetir o ceviche se der vontade, e sair sem drama. Quase quatro mil avaliações não são modismo de internet que enche o salão por duas semanas e evapora. São anos de pratos servidos, de uma cozinha que mantém o padrão com a disciplina de quem sabe que frutos do mar não perdoam descuido. Um dia ruim com peixe e o cliente não volta. O Chichí, pelos números, não dá esse dia ruim.
A cozinha de frutos do mar do Yucatán tem uma personalidade que a separa do resto do México costeiro. O habanero aparece cru, cortado em rodelas finas ao lado do prato, desafio aberto para quem se atreve. O achiote, aquela pasta vermelha alaranjada feita de sementes de urucum, tinge tudo que toca com cor de pôr do sol. O limão não é acompanhamento, é ingrediente estrutural. A cebola roxa curtida em vinagre de laranja amarga é tão onipresente que parece parte da louça. Ceviches, tostadas, cockteles de camarão, tacos de pescado: essa base yucateca aparece em todos, com variações que revelam a mão de cada cozinheiro. No Chichí, a execução dessa tradição é o que mantém as mesas cheias dia após dia. Nos bares da cidade, o mezcal vem ganhando terreno nos últimos meses, e um mezcal defumado ao lado de um ceviche picante do Golfo faz o tipo de sentido que só o calor de Mérida explica.
A tarde avança e o calor começa sua lenta retirada. As mesas mais próximas da entrada esvaziam uma por uma, mas no fundo do salão a conversa continua alta, os copos se enchem de novo, os pratos ainda chegam com aquele brilho de molho e citros. Los Mariscos de Chichí serve enquanto houver peixe e enquanto houver quem chegue. Em Mérida, com o Golfo do México tão perto que quase se sente o sal no ar, parece que sempre há os dois.
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